O futuro do empreendedor, segundo o Sebrae

Postado por: - julho 22, 2011 ás6:40 pm



O cenário para o empreendedorismo no Brasil nunca esteve tão bom. Os donos de micro e pequenas empresas estão se preparando cada vez melhor e, embora continue alto, o índice de falências precoces tem diminuído por causa disso. No entanto, entraves burocráticos, do lado do governo, e falta de planejamento, do lado dos empresários, são ainda os maiores obstáculos para o futuro do empreendedorismo. Essas são algumas das principais conclusões que se pode tirar do diagnóstico sobre o empreendedorismo no Brasil feito pelo diretor-superintendente do Sebrae de São Paulo, Bruno Caetano.

Em entrevista exclusiva ao Empreendedores, ele alerta ainda para a necessidade de o empresário entender que o mercado hoje em dia é global e que a inovação é um ingrediente indispensável para o sucesso. “O empresário ainda inova muito pouco, mas inovar também é para micro e pequenas empresas, e é sempre possível”, diz Caetano.

A economia brasileira nunca atravessou uma fase parecida com a de hoje. Trata-se de um período de estabilidade de duração sem precedentes e com uma elevação de poder aquisitivo das classes mais baixas também nunca visto. O que esse cenário deve trazer de mudanças para o empreendedorismo nos próximos anos?

O Brasil vem passando por grandes mudanças desde a estabilização da moeda, em meados dos anos 90, que foi a âncora para que o Brasil pudesse ter planejamento e visão de longo prazo. Isso criou um ambiente que favoreceu o empreendedorismo e a abertura de novas empresas. Nesse período, também experimentamos mudanças no perfil do empreendedor. Até aquela fase, a maior parte dos empreendedores brasileiros empreendia por necessidade, ou seja, eram pessoas que queriam abrir o próprio negócio por falta de opção ou porque perderam o emprego, por exemplo. A partir da metade da última década, a grande maioria do empreendedorismo no Brasil se dá por oportunidade, o que significa que é um empreendedorismo mais estudado, mais planejado, e que resulta em melhores indicadores de rendimento e sobrevivência. Há quinze anos, cerca de 35% das empresas não sobreviviam ao primeiro ano de vida, mas hoje este número caiu para 27% . É um índice alto ainda, mas, sem dúvida, o ambiente é melhor para empreender.

O que ainda pode ser feito, então, para que esse número fique ainda menor?

Ainda existem algumas questões estruturais que não foram completamente vencidas, como o custo da folha de pagamento e as dificuldades no relacionamento com o poder público (burocracia na abertura e, principalmente, fechamento de empresas, obtenção de licenças, fiscalizações, e a regulamentação em geral). Há ainda alguns assuntos mais cotidianos que precisam ser melhorados, como a atualização das faixas de contribuição que se encaixam no programa fiscal do Simples Nacional, que ainda está sendo discutida.

Os fatores que levam ao fechamento das empresas continuam os mesmos, ou isso também mudou?

O grande responsável ainda é a falta de planejamento. Parte significativa dos candidatos a empresário brasileiros ainda dedica pouco tempo ao planejamento do negócio. Ainda se acredita no mito de que o capital é a condição mais importante para o sucesso de um empreendimento, mas o mais importante é planejar. Outro mito que atrapalha bastante o desempenho das pequenas empresas diz respeito à inovação. O empresário ainda inova muito pouco, mas inovar também é para micro e pequenas empresas, e é sempre possível. Existem três tipos de inovação: do processo produtivo, que significa, por exemplo, implementar ferramentas para produzir mais, melhor, de forma mais barata e sustentável; do produto ou serviço que a empresa oferece; e do mercado em que atua (ampliar o acesso a novos mercados, dentro ou fora do Brasil). As empresas que inovam costumam faturar o dobro das que não inovam.

Como a concorrência internacional da nova economia globalizada afetou essa realidade e o desempenho das MPEs?

Entender o mercado como um mercado global é pré-requisito para qualquer negócio dar certo. Nenhum setor da economia está isento da concorrência internacional. O micro empreendedor tem dificuldade de enxergar o mercado como sendo global. Falta colocar no mapa o mercado global, e falta apoio do poder público para empresas que pretendem exportar. O câmbio muitas vezes é desfavorável às empresas brasileiras, mas isso não as isenta de pensar em uma estratégia, pois é preciso se preparar justamente quando as dificuldades são maiores.

E o que melhorou?

A capacitação do pequeno empreendedor brasileiro melhorou. Hoje, 83% das pessoas que abrem o próprio negócio têm o ensino médio completo ou mais. Ainda há algumas limitações quanto ao nível de conhecimento do pequeno empresário brasileiro, mas estamos chegando a um patamar que é o melhor que já tivemos.

Qual o maior desafio hoje que os donos de micro e pequenas empresas enfrentam para empreender?

O grande desafio é criar conexão com a cadeia de produção. A maior parte das MPEs está distante das grandes cadeias produtivas. Uma pesquisa nacional conduzida pelo Sebrae-SP mostra que só 16% do faturamento das pequenas empresas vêm do fornecimento para grandes empresas e para o governo. É preciso melhorar essa inserção na cadeia produtiva. Hoje as micro e pequenas representam 98% das empresas brasileiras, mas respondem por somente 20% do PIB, consequência dessa desconexão.  Na Argentina e no Chile, esse número é duas vezes maior. É possível elevar esse percentual por meio da inovação e da associação para vencer obstáculos, como a falta de capacidade produtiva para atender grandes pedidos, ou a eventual falta de qualidade do produto. Com um processo de planejamento, é possível aprimorar as estratégias de produção e inovar para melhorar o desempenho.

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Debora Carrari
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